Mas este livro tem, na nossa opinião, um significado muito mais amplo para o qual gostaríamos de chamar a atenção. De facto, o autor é um exemplo daquilo que de melhor tem a nossa vetusta Nação, e que são aqueles que tiveram a coragem de daqui sair, de contribuir para a formação de outras nações, de nelas serem perfeitamente integrados e de nunca esquecerem a sua origem, da qual sentem profundo orgulho.

Por toda esta obra perpassa a luta de um homem e de uma família pela conquista do lugar na sociedade a que consideram ter direito. Assiste-se aos intricáveis meandros da discriminação que sofrem e sofreram os Melungos, mas que também sofreu o autor até atingir a posição que ocupa hoje. E tudo isto sem enjeitar a sua origem, tendo orgulho nela e educando os seus filhos e netos no amor não só à grande nação que os acolheu, como também ao seu querido País de origem.

Estes factos e este tipo de atitudes foram para mim revelados intensamente ao longo da minha vida na Armada, não só pelo contacto com as comunidades estabelecidas em África e nas ilhas do Atlântico, mas também com as da Europa e Américas. Neste último caso, contribuíram decisivamente as missões no Navio Escola Sagres nos anos sessenta e oitenta, e mais recentemente no início dos anos noventa.

O meu envolvimento no estudo da época dos Descobrimentos e da expansão tem ultimamente permitido avaliar a riqueza dos nossos vestígios na Índia e Brasil.

De facto, não sei sinceramente se actualmente no nosso país se tem a perfeita noção da nossa real dimensão.

O nosso envolvimento na Europa Comunitária e os financiamentos a fundo perdido que têm como objectivo concreto fazer com que o nosso atraso se reduza, para que a economia comum possa funcionar, parecem ter amolecido as nossas consciências.

Parece que ainda não se percebeu que esse caudal secará num futuro muito próximo e que depois teremos que nos integrar em igualdade de circunstâncias com todos os outros países com quem voluntariamente nos associámos.

E como manter a nossa identidade face aos nossos parceiros mais fortes ou com os de igual dimensão que no entanto tiveram mais sucesso nas medidas de integração? Como manter a nossa independência face à vizinha Espanha, nossa permanente companheira de aventuras ao longo dos séculos, que no entanto sempre tentou a unificação da Península?

Tudo isto são interrogações que se põem aos portugueses e normalmente não se vêm respostas para estes problemas.

Tenho, no entanto, a convicção profunda que tudo se resolverá e terá solução adequada, se tivermos a noção do que na realidade representa a nossa Nação no mundo de hoje, cuja posição se começou a cimentar no século XV, como muito bem resume Manuel Mira e do qual este senhor é um exemplo marcante.

Será que compreendemos que foi Portugal que iniciou a expansão da Europa e que até poderíamos afirmar, estando agora na moda o ajuste de contas do passado, que os Europeus nos estão agora a pagar o desbravamento do caminho?

Será que percebemos que a nossa língua é falada por mais de duzentos milhões de pessoas e que é a terceira língua Europeia mais falada do mundo, a sétima entre todas as outras, tendo sido este o veículo de expressão oral e escrita com que Portugal iniciou a expansão Europeia?

Será que nos recordamos que a nossa expansão começou com uma matéria-prima humana correspondente a pouco mais de um milhão de pessoas, que no início do século XVI teríamos cerca de um milhão e quatrocentas mil almas, ao lado de uma Espanha com cerca de 7 milhões, uma França com 14 milhões, uma Inglaterra com 4 milhões, e que mantivemos o monopólio dos mares por mais de um século e meio na área que nos foi atribuída?

Será que todos nós sabemos que fizemos um Brasil e que os nossos vizinhos ibéricos originaram quase uma vintena de estados nas Américas do Sul e Central, muitos deles bastante precários?

Será que compreendemos que criámos em Cabo Verde a primeira sociedade multirracial nos trópicos, que terá os seus defeitos e problemas, mas que possivelmente é a única solução para este mundo tribal?

Será que verificámos que os Timorenses optaram pela língua Portuguesa e pretendem ser integrados de pleno direito na Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, porque reconhecem que na zona geográfica onde vivem isso lhes dará a conveniente identidade e poder negocial?

Será que ainda nos recordamos que existem espalhadas pela Ásia inúmeras comunidades de origem Portuguesa, que falam Português ou um crioulo do Português e que têm orgulho nisso, e que os nossos vizinhos Galegos pretendem pertencer à CPLP?

Será que nos apercebemos que em todos os países africanos de fala portuguesa há sangue do nosso sangue nas veias de milhões de cidadãos, que têm os nossos apelidos, que têm familiares de Trás-os-Montes, do Brasil, da Índia, da Malásia, ou mais concretamente do Mundo?

Será que olhamos no Portugal Europeu para os nossos irmãos africanos, que recentemente nos procuram para tentar a sua vida aqui, onde há trabalho, visto que, na terra onde os deixámos entregues à sua sorte, não conseguem minimamente alimentar-se nem aos seus e que os recebemos condignamente?

Será que contribuímos o suficiente para a formação dos futuros quadros africanos ou asiáticos ou mesmo sul-Americanos, através de bolsas de estudo e de programas afins?

Estou convencido de que tudo isto sabemos aqui neste rectângulo europeu, mas que estamos distraídos, pensando que a Europa nos resolverá todos os nossos problemas!

Mas, pela experiência recente e passada com as nossas comunidades, verifiquei que todos os Portugueses que estão no estrangeiro sabem disto, e Manuel Mira é um exemplo evidente desta afirmação. E muitas das ideias anteriormente expostas estão contidas ou subentendem-se neste seu livro.

Podem crer, minhas senhoras e meus senhores, que o que verifiquei nos Estados Unidos e noutros locais do mundo é que as comunidades Portugueses têm um apurado sentido patriótico, que não se nota em Portugal. E que este livro será muito mais útil aqui do que na América ou no Brasil, por exemplo.

Agostinho da Silva afirmou que, e cito, “a construção do descoberto fez-se pela imigração”. E mais adiante afirma que “dentro do País ficaram aqueles que não tinham coragem, aqueles que não tinham iniciativa”. E segue com outras afirmações pouco lisonjeiras para quem cá ficou, as quais não será oportuno referir agora e que porventura serão demasiado radicais.>>

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  • Actualizada:
    11 de Fev. de 2012