Nota do Editor: Recebemos o seguinte do nosso Colaborador José-Manuel de Oliveira em Genève Suisse, que agradecemos:

BREVE HISTÓRIA DO CRISTIANISMO PORTUGUÊS

 Leandro Laube

 Parte integrante de ensaio apresentado na IV Semana de Filosofia das

Faculdades de Administração, Ciências, Educação e Letras — FACEL

20 a 25 de outubro de 2003

 Ao que parece, havia, para o português, além do impulso econômico e político, uma forte convicção de que cabia a ele a missão de espalhar o cristianismo pelo mundo todo, chegando em todos os quadrantes com a cruz em punho, para a glória de Deus. Mas de onde veio tal certeza? Este ensaio pretende tecer um painel histórico geral da formação da identidade religiosa lusitana, partindo do reino suevo (no contexto do ocaso romano ocidental) e desembarcando na mestiçagem do Brasil. Esboça o fortalecimento da fé católica na Europa feudal e a importância das ordens militares nos descobrimentos ultramarinos lusitanos e, conseqüentemente, a influência desses avanços nas "verdades" cristãs. 

Nos séculos II e III d.C, levas de bárbaros — principalmente os germanos — entravam nos domínios romanos em busca de terras férteis, impelidos pelos ostrogodos, que, por sua vez, eram pressionados pelo avanço dos hunos de Atila. No início o convívio foi pacífico, pois os invasores apresentavam-se apenas como colonos em território imperial, contando, inclusive, as legiões romanas com esses bravos guerreiros. No princípio do século V, porém, iniciam-se os conflitos e diante da dificuldade em expulsar os bárbaros, Honório, soberano do Império Romano do Ocidente, negocia a divisão territorial (no âmbito do presente ensaio a atenção será dirigida apenas à Península Ibérica), de modo que suevos e vândalos ficam com a Galaecia (noroeste da península), onde haviam fundado um império em 411; os alanos na Lusitania e na Cartaginense (região sudoeste) e os vândalos silingos na Baetica (centro-sul peninsular). [1]

Em 416, Honório ordena o ataque aos alanos e vândalos silingos, que se retiram para o norte da África, território que ocupam até 534, quando a região foi reconquistada por Belisário, general de Justiniano. Restaram somente os suevos e os vândalos na península, situação que permaneceria até 492, quando, em guerra contra os primeiros, os vândalos também seriam expulsos para a África.

 Os suevos já não têm concorrentes. Durante mais de uma centúria sustenta-se o seu reino na parte noroeste da Península. Alarga-se até o Tejo com a capital em Braga (já sede de um bispado desde Diocleciano) e chama-se Reino de Portu-Cale — do nome de dois castros fronteiros nas margens do Douro.[2

Em 448, Requiário, imperador suevo, é batizado católico. Nesse período, os visigodos já atravessam os Pireneus vindos da Gaelia, após a derrota para os francos. Confrontam-se com os suevos, cujo rei é morto por Teodorico II (imperador visigodo), em 456. Seu sucessor, Remismundo, abandona o cristianismo, adotando o arianismo.

No ano de 507, os visigodos estão definitivamente instalados na Hispania. Dominam praticamente toda a península, com exceção da Galaecia, território suevo, aproveitando-se do conflito entre estes e os vândalos.

Em 560, o então imperador suevo, Teodomiro, converte-se ao cristianismo juntamente com seu povo.

Paralelamente, os visigodos cresceram em poderio, tendo como monarca Leovigildo (ariano), que empreende caça aos católicos incitado por sua mulher, Gosvinta, e por seu próprio fanatismo ariano. Um de seus filhos, Hermenegildo, casado com Ingunda (católica), levanta-se contra o pai, aliando-se aos suevos, mas é derrotado em Sevilha e executado logo após.

Em 585, os visigodos incorporam os suevos, aproveitando-se das cisões e instabilidades internas daquele reino. No ano seguinte, Leovigildo morre, deixando como sucessor Recaredo, seu outro filho, que se converte ao catolicismo — a profissão de fé aconteceu no III Concílio de Toledo, em 589 — e unifica toda a Hispania sob a fé católica. Nos anos seguintes, observou-se a amalgamação completa dos hispano-romanos com os godos.

Mais ao leste, uma outra nação também passa por transformações: Maomé consolida seu poder político e econômico e, com um numeroso exército, invade Meca a partir de Medina (630), destruindo todos os ídolos, professando o monoteísmo e a devoção a Alá, único Deus.

Após a morte daquele que viria a ser o profeta de Alá (632), os árabes dão início à Gihâd (Guerra Santa), considerando dever de todo muçulmano expandir a fé islâmica, confrontando os infiéis e levando seus domínios a leste e a oeste. Assim, em 638 tomam Jerusalém, em 640 já são senhores do Egito, em 647 chegam a Trípoli [3].

 Em 670 constróem a cidade fortificada de Kairouan, que dá novo fôlego à expansão muçulmana. Avançam pelo norte da África em direção ao Atlântico, de forma que em 710 já tenham conquistado toda a região do Magreb (litoral mediterrâneo africano). O avanço árabe foi tão avassalador, que, conta-se, Ocba Ibn Nafé (conquistador da Mauritânia) entra, montado em seu cavalo, pelo mar exclamando: "Por Deus [Alá], se mais terra houvera, mais tomara!" [4].

 A esse tempo, na península ibérica, muitos são os insatisfeitos com os rumos tomados e o império visigoto estala sob inúmeros conflitos internos, enfraquecendo-se de forma irremediável. Então, em 710, incitados pelos traidores, os árabes atravessam o atual Estreito de Gibraltar com quatrocentos homens, no intuito de promover um reconhecimento da região [5]. Saqueiam e retornam a Tanger. Tal investida serviu como teste à resistência dos visigodos, que mostrou-se debilitada, face às contendas internas. Assim, agora à frente de um copioso exército, o general árabe Tarik desembarca na Espanha, fortifica-se no monte que passaria a ser conhecido por Geb-al-Tarik (Gibraltar) e dá início à conquista da península ibérica: Em 711 trava-se sangrenta batalha às margens do Rio Barbate (ao sul de Portugal), em que os ibéricos, sob as ordens de seu imperador Rodrigo, sofrem desastrosa derrota, sendo massacrados pelos árabes.

Após a vitória às margens do Barbate, no mesmo ano os muçulmanos tomam Lisboa e Córdoba. Em 721 ultrapassam os Pireneus e tomam Toulouse (sul da França) e em 732 batem às portas de Poitiers (centro-oeste francês, de onde, derrotados pelos francos, retiram-se para aquém dos Pireneus em 759).

Conquanto o avanço árabe sobre a península ibérica tenha sido implacável, antes mesmo destes ultrapassarem os montes pirenaicos a caminho de Toulouse, teve início o movimento de resistência, a partir das Astúrias (extremo norte espanhol). Ameal marca o início dessa reconquista da Península Ibérica pelos cristãos já em 718, quando estes, liderados por Pelágio, impõem derrota aos muçulmanos na batalha de Covadonga (ou Cangas de Oniz — atual Oviedo). Assim, a Reconquista foi libertando cidades e levando adiante o pendão da cruz.

O processo de reconquista é lento, mas afincado. Em 1150, os reinos de Portugal, Leão e Castela, Navarra e Aragão se definiriam sobre mais da metade da península. Em 1275, somente o reino de Granada permaneceria muçulmano, caindo em 1492. Os árabes estariam, assim, definitivamente expulsos.

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  • Actualizada:
    11 de Fev. de 2012