Para se sentir - ou para se viver – essa experiência pessoal e única, é preciso conhecer em primeira mão o detestável vazio da solidão - da separação do e/imigrante. É preciso partir do torrão e viver na estranja - não apenas por duas, três ou cinco semanas de férias. E o deixar-se tudo e todos atrás menos o corpo, a memória, o coração... que são transportáveis seja lá para onde for. A alma, porém, fica dependurada entre o lá e o cá; o primeiro mais lá, e depois meio cá, mas nunca completamente na íntegra - puxando sempre pela manga da saudade, fenómeno português que mexe seriamente na disposição completa do ser humano - física, mental e espiritualmente.

Só através de tal experiência própria é que se pode realmente sentir o que outrem sente. Embora seja paladar variável, a temática essencial da e/imigração é virtualmente igual para todos. Sim, todos aqueles que passaram - ou passam - além do Bojador - além da dor. Sim, os milhões do Oriente que passaram agonisticamente pela Ilha do Anjo, no grande Pacífico. Sim, os milhões de europeus que passaram pela Ilha Ellis - Ilha das Lágrimas, no Atlântico - em vapores ligeiríssimos por semanas e meses no alto mar. Ou ainda - como hoje em dia - em aviões supersónicos que deslocam pessoas - espantosamente em poucas horas - da sua própria cultura para os meios de outra completa e chocosamente alheia na estranja.

A emigração - partida, morte emocional aos “poucos-muitos-poucos” (porque emigrar não é morrer só um pouco!) - ressuscita quando se “matam saudades” para se viver. Isso é essencialmente o que tantos não-emigrantes não percebem, muitas vezes pensando que o imigrante se agarra apenas ao passado, querendo só viver uma vida de outrora. Não é bem assim.

Como é que não se pode olhar para trás? Podemos rasgar um bocado de tecido, mas é preciso remendá-lo para que possa continuar a servir...

Contudo, o emigrante vive cá porque foi deslocado por forças política-economicamente injustas e desnecessárias na sua terra. Hoje em dia, não se relata o mesmo cenário ditatorial, graças ao histórico grito da “Revolução dos Cravos”, ou seja, o golpe de estado de 25 de Abril de 1974. E esse valioso grito continua: “O povo unido jamais será vencido!”

   O lusitano nunca quis parar de ser português. Conserva hoje - com uma força louvável de querer viver - o que tem em reserva na alma, no espírito, nos costumes herdados... E exprime o seu afinco em alturas próprias que, por necessidade, acaba por matar aquele bichinho roedor que rói mais e mais naquela fibra tão especial, e tão portuguesa, da alma do ser. A saudade canta...

Venham festas! Venham convívios! Venham abraços de familiares e amigos queridos que, através dos anos, vinham sofrendo um vazio inexplicável - um vazio de torturas que só a solidão e a separação podem fornecer; que no primeiro toco abraçal, completam o círculo inteiro, unindo por completo o ser português física, mental e espiritualmente. A verdade é que o português trouxe muito do passado consigo. Porém, na medida em que o mundo que deixou atrás se foi desenvolvendo, na estranja não o fez/nem o faz com a mesma assiduidade - embora tenha a vontade e o auxílio de uns poucos jornais, programação televisiva/radiofónica, e programas culturais de língua portuguesa....

Por natureza, a cultura da terra nova sempre tenta dominar. Embora não se queira, a sua influência em tudo - psico-sócio-económica-política-linguística-culturalmente - sempre acaba por penetrar nas gretas cerebrais da vida quotidiana do emigrante...

A aculturação faz bem porque ainda se aguenta seguro o ser-se português, enquanto vagarosamente se vai absorvendo a cultura nova. Já a assimilação disturba a cultura de origem por completo ou virtualmente por completo, com as costas completa ou virtualmente viradas p’ro ser-se português; aliás, contra os costumes/cultura dos antepassados. Não se pode permitir isso. A pluralidade vale muito...

A distância do ambiente natural diz muito ou tudo. E, como exemplo, tal verifica-se precisamente na própria distância de Portugal continental com os Açores/Madeira. Antigamente, as diferenças eram muito maiores. Contudo, ainda hoje em dia - embora o progresso moderno tenha avançado consideravelmente - muitos dos costumes antigos ainda sobrevivem na sua originalidade nos arquipélagos dos Açores e da Madeira. E, quanto mais afastados dos grandes centros, tanto mais são conservados e protegidos. 

(Embora haja uma ou duas freguesias pelos lados de Coimbra que “ainda” a celebram, onde é, por exemplo, que se vai encontrar a Festa do Divino Espírito Santo no resto do Continente onde ela se originou, senão nos Açores, Madeira, Cabo Verde, Brasil, a Diáspora... honrosa e orgulhosamente onde se perpetuou até estes dias, graças aos primeiros povoadores continentais e emigrantes ilhéus mais tarde?)

Tudo que seja do povo não é perdido logo que haja amor e a tal vontade de continuidade que serve como elo de ligação de identidade às origens e ao espírito de querer ser-se português por natureza e pelo amor às raízes e à Pátria-mãe. Nos Estados Unidos - e quem diz Estados Unidos, diz o Canadá, as Bermudas ou qualquer outro país acolhedor - aprecia-se isso ainda com mais assiduidade, mais calor, mais vontade, mais fé, mais sensibilidade, mais sentimentalismo - mais saudade.

Não é de admirar. Pois a identidade de um povo relaciona-se com os feitios, os costumes, a cultura - afinal, com a sua própria alma. Entretanto, há gente da nação que, infelizmente, nem sabe dizer qual é a sua própria cultura.

Dizem ser americanos, mas a composição do indivíduo antigo nado na América do Norte é um pouco disto, um pouco daquilo, e vamos embora com um “hot dog” ou um “hamburguer” numa mão, e uma “Coca-Cola” ou “Pepsi” na outra... É doido pelo beisebol, ice cream, apple pie, peanut butter e Chevrolet no seu “driveway”. E, na Nova Inglaterra, adoram os “clam bakes” - tradição ainda dos índios norte-americanos desde a entrada dos peregrinos ingleses em Massachusetts, em 1620... Venham mais ameijoas, lagostas; e é preciso não esquecer as batatas, o milho, as cebolas, os “hot dogs”, linguiça (influência portuguesa mais tarde), muitos “clames” e “bia” para beber...

And, not-to-forget-a-melancia-fresca-e-doce-thank-you-venha-mais-sim-senhores-yes-sir!! Thank-you-venha-mais-sim-senhores!

 

 

 


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  • Updated:
    November 18, 2011