Maneira de ser do emigrante português * * *   Na América do Norte, isso da saudade toca mais na alma portuguesa porque o ambiente que domina--o que rodeia o imigrante diariamente--é outro completamente alheio ao que estava habituado; aliás, ao seu torrão português... O peixe fora do ambiente natural luta sempre por uma gota de água...   Quem está diariamente rodeado da sua cultura - a sua identificação pessoal e a força natural - não pode sentir falta dela - física, mental e espiritualmente. Esse ambiente faz parte integrante da pessoa. E essa pessoa faz parte integrante do ambiente. A interdependência domina e completa a vida inteira. É como mãe e filho(a). A criatura que vive dentro dela é dela. Quem sai dela, quer, por natureza, identificar-se com ela. Quer abraçar e beijá-la quando é criancinha. Mais cedo ou mais tarde, quer andar à roda dela por força de segurança emocional, carinho, atenção familiar - por força da sobrevivência. Depois vem a adolescência - fase descobridora e bastante insegura. Fase de existencialismo por excelência - provavelmente a fase mais existencialista de toda a vida humana. E só na pós-adolescência se estabelece uma confiança adulta, um amor mais seguro, um entendimento mais amplo de auto-realização, e um entendimento que confirma a aceitação da vida e das realidades dela. Isso tudo faz parte integrante da teia cultural do ambiente da vida quotidiana de cada ser humano. E quando ele pode participar, apreciar, expressar algo que é seu, torna-se sempre - para o e/imigrante - algo mais profundo, mais querido, mais apetitoso, porque não é coisa que ele saboreia todos os dias - embora gostasse que fosse mais frequente. É natural que o emigrante nem possa estar lá, no torrão, nem cá, na terra acolhedora, simultaneamente. Precisa de estar na terra nova, mas precisa da sua nativa também. Vai para a terra de berço e satisfaz o bichinho roedor. Faz-lhe a vontade - mata saudades. Ficando lá muito tempo, já fica com outro bichinho a roer-lhe a alma; outras saudades para matar. Regressa para viver a vida como vem fazendo há 20, 30, 40 ou 50 anos, ou mais, na terra que lhe abriu os braços quando mais precisava; terra onde ganha a vida, onde os filhos agora se vêm criando, ou já se criaram. A distância afasta o físico, mas não acaba com ele; desvia o coração, fazendo-o mais perto ainda e atenua o espírito, mas nunca mata a alma. É como o nosso Carlos do Carmo bem canta no seu rico e sentimentalíssimo fado: xPor Morrer uma Andorinha, Não Acaba a Primaverax. E a casa portuguesa - de quatro paredes caiadas - da nossa incomparável Amália Rodrigues com certeza terá sempre cachos de uvas douradas, e muitos beijinhos à nossa espera... E o xVelho Luísx - naquela taberna de bruma que deixara atrás do mar em Braga ou Monção ou Funchal ou Ponta Delgada - a brindar com vinho verde-de-cheiro-da-Madeira? Sim! Vamos! Vamos brindar e recordar tudo que ficou, irmão Luís! O cão também? Vamos todos cantar a bela balada Alexandrina do norte. Essa canção do vinho-mais-um-please-obrigadyou! E a ladra do cão de bruma nos acompanhará nesta noite-de-saudade-fri-a-luar-caloros-a-sonhar-do-Nordeste-de-outrora-não-só-baleias-de-Bèteféte-ai-Forriva-ai-Cabrites-e-Àdsine-também-de-Portuchusetts-não-só-Portufórnia-e-não-forget-Canéca-Rodalines... E no Canadá também se cantam canções do vinho... Que sensação. E a ladra distanciada do cão na aldeia? Ladra por mim - o velho Luís-entre-dois-mundos-físico-psicológicos lá-cá-cá-lá-cá-lá-lá-cá-cácá-lálá-lálá-cácaá-olálá-ocácaá-ocácáá-olálá-OLÁ-HELLO-GOODBYE! E agora, Luís?! E vamos ainda matar o bicho com aguardente da terra no nosso Nordeste da Ilha Verde - de São Miguel - nas nossas ilhas de bruma. E tomar um copo ou dois (ou três...) de vinho de cheiro, e comer ananases dos melhores da estufa fria Arruda. E aqueles licores de maracujá e ananás? E os inhames saborosos pxra caramba da Bretanha, polvo guisado, torresmos de molho de fígado, linguiça, morcela com ananás, fervedouros; e chupar em cana doce, deliciar mal-não-bem-assadas com açúcar queixo abaixo, massa sovada com arroz doce por cima de fatia, favas guisadas, arroz-de-lapas, tremoço, e as nêsperas maduras, caldeiradas de peixe, figos apanhados das próprias figueiras direitinhos pxra boca... Mmmmmm...Mmmmmmmx Ai!! E, ainda, as farturas com fartura, cozidos e caracóis do Continente... E o nosso bacalhau - o nosso sempre fiel amigo? E o medronho do Algarve? E a querida Ginjinha de Lisboa? E os riquíssimos pastéis de nata de Belém - sem igual para guloso fino-e-não-só seja onde for, a dobrada e vinho do Porto, o tinto ribatejano, o espadarte, maracujá... E espetadas de carne com sal e alho assadas num vime de louro à moda do norte da ilha da Madeira, e o riquíssimo vinho aperitivo da Madeira e Porto Santo. E que bordados lindos-no-lindo-Funchal! Ainda as sardinhas de Peniche, Nazaré, Sesimbra, Caldas da Rainha, ou ainda de Cacilhas; chicharros das águas nocturnas açorianas e madeirenses... A bagaceira de Coimbra, a  " b i c a "  (" Beba   isto   com  açúcar) e não só; sandes de fiambre nas cantinas das Universidades de Lisboa e Coimbra, sardinhadas e churrascos na movimentada Feira Popular, peixe espada nas tascas das ruas de Saldanha, cerveja-a-nacional, Sagres, Sumol, Larangina C, os presuntos e folares magníficos para morrer de Trás-os-Montes... Saudades? Não queiram saber! Quem nos dera ir à tourada no Campo Pequeno ou fugir à frente do touro em Serreta, Terceira - desafiando o bicho fortíssimo e evitando chifre-no-rabo - ou até correr atrás dos porcos na aldeia - Feteira Grande, Nordeste (o que já se fez em New Bedford, não só Açores) - em dia da matança, e, ainda, à noite, saltar a fogueira de louro no dia de São João... Que cheiro aromático tocando em todos os sentidos inesquecíveis da fibra humana! Até faria inveja ao maior xcagarrox de Santa Maria de todos os tempos - Cabral, Gonçalo - aquele Velho morador há tantos anos nos fascículos históricos dos Açores que, por infelicidade de séculos pretéritos, nunca chegou a provar o deliciosíssimo bolo na panela da Tia Mariquinhas...   Vem a ser aquela fome do que já foi, da fome que continua actualmente; aliás, aquele xgrande-poucox do nosso ser que chegou a sobreviver e que ainda nos ajuda a sobreviver, sem nos enlouquecermos por completo em terras alheias. A sobrevivência da cultura em terras alheias depende por completo da vontade do coração português. O sentimento é o que salvaguarda a própria cultura nativa no coração. E o que se torna, por necessidade, companheiro profundamente indispensável como identidade própria mais chegada ao espírito da alma portuguesa - do ser-se português. É, ao fim e ao cabo, o instinto pessoal/social que preserva/fortalece a gente da nossa gente em terras acolhedoras. Isso abraça-se com toda a força porque fazia parte integrante da vida de outrora na terra. Deseja-se continuidade do mesmo - do ser-de-si-e-sempre. É precisamente isso o que faz ainda mais apreciar-se a cultura própria.   É isso, sem a mínima sombra de dúvida, que traz, e dá, vida ao espírito da alma lusitana... Para se sentir mais assiduamente a saudade, é preciso não ter o que se tinha, e é preciso estar-se num estado entre dois mundos distintos, até certo ponto; aliás, estar-se num estado xlimbolandêsx entre aqueles dois (ou mais) mundos... E estar-se desejosos, sem se satisfazer o desejo. Como o grande Luís Vaz de Camões possivelmente acreditara, seria isso deveras uma forma especial de se “querer estar preso por vontade”???

Talvez apenas Neptuno ou Zeus sejam os únicos que o saibam... Talvez o velho do Restelo? Possivelmente o tio Francisco Caetano da Feteira-a-Grande-não-Pequena dos nossos tempos? Ou, porventura, o Velho Luís - longe da sua terra - com o seu verde-vinho num velho-bar-luz-taberna-acesa em noite fri-a-luar a recordar aldeia velha - o pai, a mãe, a casa, a noiva e o cão também? A alma? O vento lá fora sabe tudo. Tudo! O velho Luís também...

A verdade é que a “Limbolândia” se refere não apenas ao estado de ausência, como e migrantes, mas também como i migrantes - até na morte. Porque quem fica, sempre chama por aquele, e aquilo, que se foram. E quem foi - e ainda é vivo - sempre chama por aquele, e aquilo, que ficaram atrás. Já aquele que morre deixa a saudade toda atrás, o que agora carrega ultra-pesadamente nos ombros de quem fica a sofrer entre aqueles mundos limbolandeses, agora em tripulo lá (torrão), cá (terra acolhedora) e infinidade (morte).

 

 

 


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  • Updated:
    November 18, 2011